QUARUP – MEMÓRIA CULTURAL: UMA LEITURA DE SUA UTOPIA

 

Roseana Nunes Baracat de Souza Figueiredo – USP

 

Fui ao Xingu conhecer os índios, e me deu uma paixão pelo Brasil, e um desejo de ver essas coisas que o brasileiro raramente vê...

Antonio Callado

 

O Mayombe começa com um comunicado de guerra. Eu escrevi o comunicado e... o comunicado pareceu-me muito frio, coisa para jornalista, e eu continuei o comunicado de guerra para mim, assim nasceu o livro.

Pepetela

 

O romance Quarup é construído a partir da crença na necessidade de se reeducar o povo brasileiro, ensinando-o a pensar e a agir politicamente, dentro dos padrões de uma ideologia marxista, apoiada na necessidade de se criar uma sociedade mais humana e mais justa para todas as classes sociais, principalmente para os menos privilegiados. Essa crença estava presente também n’ A Utopiade Tomas Morus.

A obraretrata uma importante época da nossa história, também esboça a crise individual, vivida por um herói confuso em sua trajetória comportamental, que vai do homem crente ao homem ativista político, do sacerdócio católico à fé política e à luta armada, em um processo de reeducação contínua e insistente.

            Encontramos nesse romance uma espécie de redescoberta do Brasil. A tentativa pessoal das personagens para encontrar o Centro Geográfico do Brasil parece-nos metaforicamente uma tentativa de buscar-se uma unidade nacional ou o desejo de integração do país. Como em Mayombe, em palavras do próprio Pepetela, Mayombe “traz o tema da formação da nação angolana”. Tornou-se já um tema constante em suas obras, a construção da nacionalidade, assim como um tema constante na literatura angolana. Percebemos que os escritores angolanos, mesmo com décadas de diferença, fizeram um caminho pelo qual passaram nossos modernistas[1], ou seja, o desafio de fazer uma literatura que interviesse no processo de definição do país. Aí temos a chance de ver que a função da obra literária e o papel social do escritor se recoloca, senão com outras cores, pelo menos, com novos matizes. Assim, o autor aproveita do gênero que lhe é nato, o senso de historicidade, a lógica da causalidade histórica e organiza a sua visão do que tem sido aquela sociedade.

            Quarup mistura ficção e realidade através do enfoque sociológico e político. É uma obra intencionalmente política e, apesar dessa densidade política que acaba envolvendo a ação do padre Nando, a obra segue uma linha narrativa marcada pela influência psicológica, uma vez que analisa as relações humanas do protagonista e suas atitudes diante da solidão interior, do amor e de suas inseguranças vocacionais.

            Isso aproxima Quarup de Mayombe, apesar de ser ficção, é, também, um documento social escrito no momento de vivência do autor[2]. Nessa “observação participante” o autor retrata a luta por meio de personagens que vivem a problemática dos valores e contradições do momento político em questão.

            Em Quarup, o padre Nando pode ser considerado engajado no sistema religioso, primeiramente, pois era somente essa perspectiva que tinha até então. Num segundo momento, ele se torna também engajado no sistema político, a partir do momento em que se clareia todo o conhecimento nessa área. É interessante notarmos com que força as imagens do mundo exterior se fazem presentes no subconsciente de Nando, que se esforça para vencer os apelos da carne, procurando apegar-se aos tênues fios de sua religiosidade desgastada pela tomada de consciência das injustiças sociais e da necessidade de exteriorizar sua sexualidade.

            No último capítulo acontece a conscientização final de Nando que redescobre a importância de seu engajamento nas lutas sociais e políticas e que não mais necessita fisicamente de Francisca, já que tem a amada para sempre dentro de si mesmo. Nesse ponto podemos perceber o espírito socialista utópico, o qual consiste no desligamento do amor carnal para o engajamento na luta social, o que seria um amor maior, verdadeiro e real.

Nando é circundado de imagens utópicas: seu desejo de estar com os índios e desenvolver determinados projetos, a necessidade de chegar ao Centro Geográfico do Brasil, percorrendo as aldeias indígenas, o jantar oferecido a Levindo – em sua memória para que o espírito da revolução não descansasse, a necessidade do homem de se organizar comunitariamente, prevalecendo o interesse do coletivo sobre o individual. Todos esses desejos fazem parte do universo utópico de Nando.

            Lembro Jameson, quando em seu O inconsciente político diz o seguinte: “Certos textos possuem uma ressonância social e histórica - e por vezes até política. Há uma tendência de muitas teorias contemporâneas a reescreverem determinados textos do passado em termos de sua própria estética, em termos de uma concepção modernista.”[3]Jameson concebe a perspectiva política como horizonte absoluto de toda leitura e de toda interpretação - a interpretação política dos textos literários, e é isso o que ocorre quando se lê Quarup; tem-se a partir dessa leitura um posicionamento histórico-político.

            “A História mistura-se ao texto literário. É quando trazemos para a superfície do texto a realidade reprimida e oculta dessa história fundamental, que a doutrina de um inconsciente político encontra sua função e sua necessidade.”[4] Isso também fica bem claro no texto de Antônio Callado, além da evidente identificação entre os ideais do protagonista e um dos trechos de Jameson: “A única libertação efetiva começa com o reconhecimento de que nada existe que não seja social e histórico: tudo é político”[5] e assim fica claro a libertação que ocorre com Nando, pois engajando-se no sistema político descobre seu verdadeiro ideal - a luta pela justiça social.

            Bloch, em seu Novo Espírito Utópico, faz uma distinção entre o “desejo”, que pode ser passivo e o “querer”, que é ligado ao agir, dirigido a um objetivo. Foi o que se deu com Nando; havia um desejo, uma fé na sociedade, nos homens, mas foi quando o seu “querer” manifestou-se mais intensamente que ele pode agir concretamente numa luta que passou a ser sua também.

            “Bloch viu nos movimentos revolucionários da época a confirmação de sua teoria da chegada de uma nova ‘época messiânica’ da humanidade, liberada das cadeias da opressão e da exploração, a confirmação da possibilidade objetiva do triunfo das tendências místico-utópico-revolucionárias na história e do momento histórico único do surgimento de uma ética instituindo e fazendo triunfar autênticas relações de fraternidade entre os homens.”[6]  Essa talvez fosse a grande utopia de Bloch e uma utopia também para o autor e o protagonista de Quarup, além das demais personagens, as quais eram impulsionadas também por um determinado “sonho diurno”, que os movia numa mesma direção por um mesmo ideal.

            O Pe. Nando, em seu engajamento religioso, já exercia um certo espírito utópico em suas ações, pois a religião tem seu pensamento utópico; o Paraíso, e é esse horizonte utópico que permite o equilíbrio do homem no mundo, mas devemos grifar que o homem não pode ser alienado de seu mundo social e político.

            Nota-se, a partir daí, uma participação muito importante da mulher em Quarup. Primeiro Winifred está presente no momento da iniciação sexual de Nando, é ela que o conduz a esse mundo tão assustador, na visão dele, e o prepara assim para enfrentar a nudez das índias do Xingu. E no centro de toda a trama, tanto religiosa quanto político-social, está Francisca, aquela que o conduz a sua real missão, a de doar-se por uma causa social. É ela que abre seus olhos, como numa epifania, e o torna completo como homem que sente e dá prazer, que ora e luta; esse seria o verdadeiro engajamento, o do homem total, pleno em seus sentidos espirituais e políticos.

 

A MATA AFRICANA = A TRIBO DO XINGU

 

Segundo a Profª. Ligia Chiappini Moraes Leite, Quarup é o livro mais famoso de Antonio Callado. Em entrevista concedida à professora, Antonio Callado revelou que Quarup é fruto de um contato jornalístico que fez por escolha própria, quando resolveu conhecer os índios selvagens no Xingu. Suas reportagens causaram-lhe impressões tão fortes e profundas que guardou esse material para depois elaborar um romance. Tirou dois anos de férias para escrever Quarup. Ele quis fazer um livro do retrato do Brasil do seu tempo.

             E há nisso uma grande semelhança entre Quarup e Mayombe, pois os dois autores colheram informações e impressões no contato direto com seus “personagens”, o enredo foi elaborado a partir de uma realidade vivida pelos autores; Pepetela esteve na floresta do Mayombe e Antonio Callado esteve no Xingu. Será um livro de história na medida em que é a realidade vivida pelo autor tornada ficção. Em Mayombe temos o traço filosófico do homem como indivíduo e o seu comportamento como guerrilheiro. É a história do guerrilheiro, da guerrilha, mas sempre dos indivíduos nas suas idéias. É uma grande epopéia, a épica dos guerrilheiros. Mayombe é a primeira obra angolana que dessacraliza os heróis.

As personagens dos dois romances  demonstram o  mesmo  objetivo,  o  de  buscar

uma unidade nacional e o desejo de integração do país. Ambas são obras engajadas, no plano religioso, que é o caso de Quarup, e no plano político; elas mesclam realidade e ficção a partir de um prisma sociológico e político. Parece complicado aproximar um padre de um guerrilheiro, porém ambos traçam uma mesma trajetória, passam por obstáculos que os levam a redescobrir suas nações e suas funções dentro da sociedade.

            Em Mayombe, o comandante Sem Medo é, dentre as personagens, a mais cética em relação ao futuro pós-libertação: ele prevê a insurgência do partido único, onipotente, distante da prática democrática. Não obstante o cargo de chefe que ocupa, é quem mais cultiva o diálogo democrático; podemos perceber em sua fala um autêntico movimento dialético, um deslocamento de sua posição central, no sentido de entender o outro, de desmistificar os dogmas, ponderando que, em toda doutrina, o que deve prevalecer em última instância é o homem:

            “_ Tens de te habituar aos homens e não aos ideais.” (Sem Medo ao Comissário, p. 16)

            Além disso, temos também nas falas de Muatiânua, Lutamos, Teoria e Sem Medo a esteriorização da perplexidade em relação à lógica do código tribal. Sobretudo, essa percepção privilegiada está presente em Muatiânua, destribalizado, e Teoria, mestiço, justamente por suas condições marginais, tanto em relação ao branco quanto ao nativo:

            “De que tribo? pergunto eu. De que tribo se eu sou de todas as tribos, não só de Angola como de África? Não falo eu o shwahil, não aprendi eu o haussa com um nigeriano? Qual é a minha língua, eu, que não dizia uma frase sem empregar palavras de línguas diferentes?”  (Muatiânua, p. 133)

            “A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez?” (Teoria, p.7)

            É utopia achar que um povo pode começar do nada, esquecer seu passado e começar um futuro diferente do presente, sem suas conseqüências. O futuro é fruto do passado analisado no presente e refletido para que possa ser melhor. Ninguém e nenhuma nação surge do nada.

            É importante destacar a posição do comandante Sem Medo, que antevia como obstáculos ao projeto de uma nova nação a disputa racial e a falta de apoio popular no decorrer do processo que levaria, futuramente ao comunismo. E é justamente essa imagem utópica que nos parece mais presente no livro: a adesão popular e o fim do tribalismo como elemento de exclusão e intolerância. Tal visão nos parece próxima à utopia de Lukács, que aspirava à superação da alienação pela tomada de consciência do proletariado e à consciência do indivíduo enquanto ser social. Foi isso que se deu também com o Pe. Nando em Quarup, uma tomada de consciência e a descoberta de uma missão social muito maior que um objetivo pessoal e particular.

O Xingu representou uma série de imagens utópicas para cada uma das personagens; para o Pe. Nando, era uma missão religiosa, já para as outras personagens, um jogo político, uma guerra de poderes. Um chefe do Serviço de Proteção ao Índio que nunca foi ao Xingu, que emprega toda a família e abomina os sertanistas por viverem no mato, esse mesmo chefe do SPI quer fundar uma réplica da farmácia de sua família na tribo, sem se preocupar com a descaracterização do ambiente e sem levar em consideração a crença dos índios na cura através do Pajé. Nando começa a perceber que o contato do homem branco só faz mal aos índios, um mal cultural, físico, espiritual e principalmente social. Esse é o grande problema, quando o homem perde a fé em seu trabalho, perde seu objetivo e daí em diante não luta mais, porque não crê em mais nada. Em Mayombe isso também acontece, como percebemos nas palavras críticas de Sem Medo:

“Os fracos abandonam a luta revolucionária só porque o seu ideal cai por terra ao verem um dirigente enganar um militante. Os outros temperam-se, tornando-se mais relativos, menos exigentes. Ou então mantêm a fé acesa. Estes morrem felizes embora talvez inúteis.” (p. 81)

No discurso de Sem Medo, a utopia aparece como um sistema aberto, ainda na categoria de Abensour, isto é, não se reduz a uma fórmula, pois os impulsos utópicos – na linguagem de Bloch – vão construindo o caminho revolucionário e por este sendo alimentado:

“Mas há homens que não precisam de ter fé para suportarem os sacrifícios; são aqueles que, racionalmente, em perfeita consciência, escolheram esse caminho, sabendo bem que o objetivo só será atingido em metade, mas que isso já significa um progresso imenso. É evidente que estes têm também um ideal, todos o têm, mas nestes o ideal não é abstrato nem irreal.” (p.81)

 Foi essa falta de fé que se deu com Nando, como num momento de epifania, seus olhos começaram a enxergar o que antes apenas viam sem entender. Era preciso mudar uma série de prioridades dentro de si, precisava organizar seus objetivos reais e começar a lutar pelo que realmente valeria a vida, a luta.

Já em Mayombe, o clima de diálogo desaparece e as conversas são atravessadas pelos sinais da incomunicabilidade. A incompreensão, a rivalidade, as intrigas manifestas ou apenas sugeridas fazem prever a irrealização dos propósitos que teriam levado à luta. O projeto de uma nação livre se vai estilhaçando na condução de um processo inicialmente banhado pela generosidade de um sonho coletivo. A utopia tem como adversário os próprios homens que investiam em sua construção.

Porém, talvez a guerra na floresta do Mayombe tenha sido mais frutífera que a do Xingu, pois os guerrilheiros do Mayombe estavam organizados por um objetivo comum, e apesar das lutas internas e das diferenças, eles lutavam juntos. Já em Quarup, os homens se uniram cada um por uma causa, por um objetivo diferente, daí a única organização forte no romance, ironicamente dizendo, foi a do formigueiro no Centro Geográfico do Brasil; as formigas eram mais fortes que os homens, porque estavam unidas e organizadas.

Segundo Bloch o homem não pode apetecer e sim desejar, o impulso torna-se desejo. Essa imagem de Centro do Brasil em Quarup pode aproximar-se, em Mayombe, do ventre do comandante Sem Medo. Simbolicamente ventre também é centro – do mundo e de si mesmo. O formigueiro remete à organização do mundo e tem uma ligação também com a sexualidade e a ritos de fecundidade, é a energia circulando, fervilhando nas entranhas da terra.

            As relações sexuais, no romance, representam também as relações políticas, ou seja, elas passam por etapas semelhantes de amadurecimento e conscientização. Para o Pe. Nando foi um aprendizado do amor e da política, uma passagem do sexo à revolução. Nando passa por um apostolado do amor: Igreja – Amor – Revolução. Por fim, percebe que já não precisa fisicamente de Francisca, pois tudo o que ela lhe ensinou estará com ele e esse amor platônico transforma Nando, agora, num homem engajado num ideal social muito maior que o amor individual. Daí ele passa a entender Levindo, é nesse ponto que Nando realiza uma réplica do quarup em homenagem a Levindo e despede-se mentalmente de Francisca. Nando passa a se chamar Levindo e a ter a força revolucionária dentro de si.

            Porém, Nando não é Levindo, ele tem algo mais, a ascensão, a trajetória pela qual passou fez dele um herói romântico, aquele capaz de doar-se ao coletivo, aquele que teve amor para com a comunidade e pela qual fez a sua revolução. A Utopia aparece aí, o herói romântico se assemelha ao herói revolucionário, pois Nando procura a plenitude, procura acabar com as dicotomias.

            O espaço se apresenta muito forte nos dois romances, tanto em Quarup quanto em Mayombe ele é responsável, em grande parte, pelas transformações porque passam seus protagonistas. Em Mayombe o espaço se eleva e atua como elemento de forte significado na ordem narrativa; como também ocorre em Quarup, onde o Centro Geográfico é um objetivo e o Xingu, um mito, que possui força transformadora. Na relação com os elementos externos, podemos assinalar semelhanças com o romance brasileiro voltado de modo direto para as questões sociais, aqueles que dão preferência por uma linguagem mais direta, um estilo seco, calcado no desejo de revelar as agruras de uma situação injusta e, por isso, passível de mudança.

            Em Mayombe percebe-se as várias dimensões do momento de gestação da utopia da libertação nacional, o autor faz da floresta muito mais do que um palco para as ações que serão narradas, ela tem um papel dinamizador, ela interage com os personagens, o autor investe na sua personificação. A floresta ganha ares de gerrilheiro, não havendo assim, sinais de submissão entre os atores e o espaço; são ambos forças complementares de um movimento.

O destaque dado ao ambiente, tanto em Quarup quanto em Mayombe, não foi para enaltecer uma natureza exótica ou idealizada. No caso de Mayombe, o destaque conferido à floresta, a ênfase com que se descreve a sua exuberância, a atmosfera meio mágica de seu interior não concorrem para sua idealização. Politizado, o Mayombe é lugar de conflito e contradição, podendo, portanto, ser visto como uma representação de Luanda.

 

CONCLUSÃO

 

            Quarup não representa meramente a trajetória do abandono da religião pela política, mas a percepção quase profética dos novos rumos que a igreja estava começando a trilhar, bem como a firmação de uma religiosidade mais livre para uma sociedade mais justa. O romance combina elementos polêmicos como a tendência do romance religioso e o romance político-social, mostrando uma faceta de engajamento que vai se tornando cada vez mais evidente no transcorrer da obra. Nando representa mais do que uma simples ruptura com os valores religiosos, representa a conscientização do papel sócio-político do clero em busca de uma justiça social.

            A utopia tão procurada pelo protagonista, no sentido de criar um novo paraíso no Brasil Central, parece ser a forma encontrada por ele de dar um sentido para a sua vida. Ele busca seu próprio centro, tentando redefinir sua identidade. Mais forte que sua vocação sacerdotal é sua vocação pelo mundo social e humano. O encontro com o mundo primitivo simboliza um reencontro com as origens. Quando Nando se descobre através do amor com Francisca, ele passa a redescobrir sua vocação sócio-política, ele retoma sua participação nas Ligas Camponesas e a oposição ao regime ditatorial.

            Antônio Callado mostra claramente seu engajamento, entretanto, não deixa de apontar que a liberdade individual é algo mais forte e necessário do que uma entrega quase doentia ao sonho de uma justiça social e política gravada com sangue de heróis individuais. A conscientização do coletivo social passa pela descoberta do indivíduo dentro de si próprio. O livro faz um quarup com a sociedade brasileira, ele é a memória cultural de um trecho da história do Brasil.

Muito mais do que ousou prever o comandante Sem Medo, o herói do Mayombe, os fantasmas perpetuaram e com a intervenção de outros elementos sacudiram a frágil sustentação da utopia que mediara o empenho daquela guerra, fundindo ética e estética num projeto literário. Em constante rotação, tal como a história do país que ajuda a fazer e a contar, a obra de Pepetela redimensiona-se ao pessimismo trazido pela derrota juntam-se algumas franjas da utopia despedaçada pela dureza de um contexto hostil.

Podemos dizer então que o romance sugere utopias, no plural, ainda que a visão de Sem Medo possa parecer hegemônica. Ele parece questionar tanto o Estado quanto o MPLA como agentes capazes de criar mecanismos que concretizem as utopias, ainda que reconheça-os como elementos necessários ao processo. Para que as utopias se realizem como transformações sociais tem de haver uma conjugação entre os sujeitos históricos e os sujeitos das utopias; tem de haver uma conjugação entre o público e o privado. Quando essas conjugações se tornassem hegemônicas, haveria condições reais para a materialização das utopias; utopias concretas que buscassem sua realização a partir da luta pela libertação nacional para atingir uma utopia mais ampla, que estaria além da vitória revolucionária, que seria a construção de um Mundo Novo em que vigorasse uma nova ordem social em uma Angola Livre, num mundo mais justo e harmonioso.

           

 

Referências Bibliográficas:

 

ABENSOUR, Miguel. O Novo Espírito Utópico. Campinas, Edunicamp,                                                                                                       1990.

CALLADO, Antônio. Quarup. 12ª. Ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984.

CHAVES, Rita. Pepetela: romance e utopia na história de Angola. In: Via Atlântica – n.º 2. USP, São Paulo, 1999.

JAMESON, Fredric. O inconsciente político: a narrativa como ato socialmente simbólico. São Paulo, Ática,1992.

LEITE, Ligia C. M. Antonio Callado. In: Literatura Comentada. São Paulo, Abril Educação, 1982.

MÜNSTER, Arno. Ernst Bloch - Filosofia da práxis e utopia concreta. São Paulo, Edunesp, 1993.

PEPETELA. Mayombe. São Paulo, Ática, 1982.

SERRANO, Carlos. O romance como documento social: o caso de Mayombe. In:

Via Atlântica – n.º 3. USP, São Paulo, 1999.



[1] Chaves, Rita. Pepetela: romance e utopia na história de Angola. in Via Atlântica. 1999.

[2] Serrano, Carlos. O romance como documento social: o caso de Mayombe. in Via Atlântica. 1999.

[3] Jameson, Fredric. O inconsciente político: a narrativa como ato socialmente simbólico. 1992.

[4] Idem.

[5] Idem, ibidem.

[6] Münster, Arno. Ernst Bloch – Filosofia da práxis e utopia concreta. 1993.